Eleições 2020 no Peru

Estive recentemente de férias em Lima, no Peru, e por coincidência ocorreram eleições parlamentares durante minha passagem por lá. Resolvi aproveitar para arriscar uma cobertura jornalística amadora e registrar minhas impressões aqui no blog.

A primeira coisa que descobri foi que sou um péssimo jornalista. Depois de muito esforço no dia anterior para pensar em como seria o trabalho, o “plano” finalmente decidido seria ir para algum local de votação para tirar fotos e conversar com as pessoas, depois para as sedes de dois ou três dos principais partidos para mais algumas conversas.

Perdi muito da manhã tentando descobrir onde eram os locais de votação. Depois que cheguei a um deles, não consegui seguir para o destino seguinte porque tomei cano do Uber e estava sem moeda local para pegar táxi ou ônibus.

Como já estava perto do final da votação, decidi voltar para o centro de Miraflores e o artigo será baseado principalmente em conversas com motoristas de Uber e garçons da cidade, além de pesquisa online.

Contexto histórico

Essas eleições foram para eleger os 130 parlamentares da única câmara do poder legislativo nacional. Mas essas não foram eleições comuns. Aliás, todo o contexto por trás das eleições é para lá de inusitado.

O presidente e os parlamentares do legislativo nacional são geralmente eleitos juntos, nas mesmas eleições. Foi assim em 2016, últimas eleições gerais. Como no Brasil, as eleições para presidente têm dois turnos, e os parlamentares são eleitos no mesmo dia em que é realizado o primeiro turno presidencial.

No primeiro turno de 2016, a candidata da Fuerza Popular (darei os nomes todos mais abaixo) obteve 40% dos votos, e o seu partido conquistou 73 das 130 cadeiras do congresso (mais da metade para um único partido!). Ou seja, foi uma vitória esmagadora.

Já o candidato dos Peruanos Por el Kambio — PPK recebeu apenas 21% dos votos e viu seu partido conquistar apenas 18 cadeiras no congresso. Acontece que ele virou o jogo no segundo turno por 50,12% contra 49,88%. Assim, o país teve um presidente eleito cujo partido detinha apenas 14% dos deputados no congresso.

A ideia de se fazer a eleição em dois turnos é evitar que candidatos com alta popularidade e alta rejeição sejam eleitos. O primeiro turno é um teste de popularidade; o segundo turno é um teste de rejeição.

Mas situações como essa, a de um presidente praticamente sem influência no legislativo, podem acabar ocorrendo quando a votação para eleger os parlamentares é feita junto com o primeiro turno presidencial. As pessoas tendem a escolher com mais atenção o candidato a presidente, e dar de brinde o voto parlamentar para alguém do seu partido. Se houver virada no segundo turno, o presidente fica órfão de apoio político.

Presidente peruano Martín Vizcarra.
Presidente peruano Martín Vizcarra.

Muitos analistas políticos vêem essa situação com bons olhos. Há menos governabilidade, mas há mais dos famosos freios e contrapesos que Montesquieu tanto buscava. No Peru, o resultado foi que presidente eleito Pedro Pablo Kuczynski renunciou em 2018 em meio a acusações de corrupção com a brasileira Odebrecht, dando lugar ao então vice-presidente Martín Vizcarra que dissolveu o congresso no ano seguinte em 2019.

O interessante é que essa dissolução do congresso não se tratou de um golpe de Estado. Esse é um mecanismo previsto sob algumas condições na constituição de 1993, mais especificamente no artigo 134. Na mesma ocasião da dissolução, o presidente Vizcarra marcou as eleições parlamentares que ocorreram no domingo passado dando novo mandato ao legislativo.

Principais forças políticas

Os Peruanos Por el Kambio são descritos no wikipédia como de centro-direita, ou ainda liberais conservadores. Me parece ser mais um exemplar da moda em voga por todo o mundo de conservadorismo indeciso, representado por Bolsonaro no Brasil, Trump nos Estados Unidos, Merkel na Alemanha, e tantos outros. São veementemente contra o que entendem por comunismo, sem deixar de adotar algumas de suas ideias.

A candidata derrotada no segundo turno é ninguém menos do que Keiko Fujimori, filha do famoso ex-presidente Alberto Fujimori. Sua ideologia é descrita como muito parecida com a do PPK, acrescentando-se um culto à família Fujimori. É notável também que os partidos dos dois candidatos que foram ao segundo turno nas últimas eleições presidenciais sejam de direita.

Partidos auto-intitulados de esquerda só aparecem mais para baixo. A candidata Verónika Mendoza recebeu 19% dos votos no primeiro turno de 2016, e seu partido elegeu 20 congressistas para a legislatura que mais tarde foi dissolvida. O nome do partido também é curioso: El Frente Amplio por Justicia, Vida y Libertad. Uma pessoa bem informada pensaria que se trata de um partido com viés liberal, mas este é apenas mais um partido de esquerda que reconhece que suas verdadeiras bandeiras não são muito populares, então tomam outras emprestadas do liberalismo.

Nenhum dos outros partidos detinha mais de 10 cadeiras na legislatura dissolvida.

Minha impressão dos entrevistados

Todas as pessoas com que conversei caem em um de dois grupos: (a) o dos desinteressados e/ou desinformados, ou (b) o dos desiludidos com a política.

Todos, é claro, sabiam das eleições. Afinal, o voto é obrigatório. Mas quando fazia algumas perguntas sobre os principais nomes dos maiores partidos ou sobre as regras gerais do processo eleitoral, muita gente não sabia responder. Dentro desse grupo de desinformados, destaco ainda algumas pessoas que, pela forma como responderam, pareciam não querer saber a respostas a tais perguntas (o grupo dos desinteressados).

Mas o grupo dos desiludidos me causou uma impressão ainda mais forte. As pessoas nesse grupo, ao contrário daquelas dos grupos acima, estavam muito bem informadas sobre os principais nomes, o peculiar contexto dessas eleições e o processo como um todo.

Mas elas visivelmente não tinham qualquer esperança de grandes mudanças a partir das eleições. Em parte porque acham que todos os políticos são safados, e em parte porque não acreditam na própria democracia. Um deles me disse:

O meu pai tentou me convencer de que o voto é importante, é como podemos melhorar o nosso país… Mas ele é apenas um grãozinho no meio da praia!

Meu registro da imprensa em um dos locais de votação.
Meu registro da imprensa em um dos locais de votação.

Uma última observação sutil, mas que achei extremamente reveladora sobre o grau de desinteresse e desilusão da população com que conversei: nem uma única pessoa fez qualquer esforço no sentido de me influenciar na direção de sua ideologia, seja ela o socialismo, o conservadorismo, ou (não custa nada sonhar!) o libertarianismo.

Com exceção de uma única pessoa que viveu a maior parte da vida na Venezuela e deixou claro que não apoia o chavismo (o que não é tão revelador de suas ideias como pode parecer), eu não saberia adivinhar a inclinação política de nenhuma das pessoas com que conversei. Todas elas responderam as minhas perguntas com o máximo de neutralidade, sem jamais revelar as ideias que apoiam.

Já no Brasil, talvez seja seguro dizer que nunca conversei sobre política com um taxista sem depois saber em que caixinha ideológica ele se encaixa.

Resultado das eleições

De acordo com o Wikipédia, os resultados das eleições ainda são preliminares no momento em que escrevo o artigo. Mas são, ainda sim, muito interessantes.

Nenhum partido recebeu mais de 11% dos votos. O partido de Fujimori perdeu 58 de suas 73 cadeiras, ocupando agora apenas 15. Dos nove partidos que cumpriram a cláusula de barreira (as cadeiras são loteadas proporcionalmente aos partidos que obtiveram pelo menos 5% dos votos), cinco não tinham qualquer cadeira na legislatura dissolvida.

O único partido que ganhou mais vagas do que tinha até o ano passado (saltando de 5 para 25!) foi o Acción Popular, um partido descrito como de centro. Ainda de acordo com o Wikipédia, houve um “maior volume de partidos novos e anti-establishment” nessas eleições.

Esse é um movimento que vemos no mundo todo. Trump se elegeu com um discurso anti-político. Dória na prefeitura de São Paulo, também. Sua principal bandeira foi a de que não era político, era gestor. Macron na França e Trudeau no Canadá, mesmo com todo o populismo, também podem ser vistos como frutos dessa rejeição pela política tradicional. O próprio Bolsonaro, apesar de ter sido político por boa parte da vida, sempre foi um político isolado dos grupos políticos tradicionais. E a população vê isso como algo positivo.

As pessoas aparentemente se cansaram da política tradicional. Mas elas infelizmente acreditam que basta colocar uma pessoa nova sentada na mesma cadeira, e políticas melhores virão.

O tempo nos ensinará que o problema está no poder que a cadeira comanda, e não em quem é o seu ocupante. Mas até lá devemos encontrar novas e mal direcionadas manifestações de desilusão com os políticos em geral.

E não é para menos.

Felipe é economista e libertário. É também fundador da Academia Liberalismo Econômico. Além da Academia Liberalismo Econômico, seu trabalho já apareceu no Instituto Mises Brasil, na Foundation for Economic Education, no Instituto Liberal, entre outros.

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