75 anos trilhando o caminho da servidão

Em 1944, quando a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial já parecia ser apenas uma questão de tempo, e já se discutia na Inglaterra qual seria o rumo pós-guerra no país, Friedrich Hayek achou importante fazer um alerta para os ingleses.

Hayek nasceu na Áustria em 1899, onde viveu até 1931 quando se mudou para Londres. O alerta que o economista queria fazer é que ele percebia na Inglaterra dos anos 40 o mesmo ambiente político e intelectual que ele vivenciara na Europa continental no início do século e que levou a região ao totalitarismo, a uma escala de violência sem precedentes, e a duas guerras devastadoras do ponto de vista econômico e, principalmente, humanitário1.

Nenhuma descrição em termos gerais poderá dar uma ideia correta da semelhança existente entre grande parte da atual [década de 40] literatura política inglesa e obras que destruíram na Alemanha a crença na civilização ocidental, criando a mentalidade que favoreceu o êxito do nazismo. […] Como sucedeu também na Alemanha, a maioria das obras que estão preparando o caminho para a adoção de processos totalitários neste país [Inglaterra] são produto de idealistas sinceros e muitas vezes de homens de considerável força intelectual.

Naquela época, as informações não viajavam através dos países com a mesma velocidade e com a mesma riqueza de detalhes a que nos acostumamos hoje. Por isso era extremamente valioso conhecer o relato de um economista que passou 32 anos na região que tão profundamente havia mergulhado no inferno. O livro foi um sucesso imediato, o que nem mesmo o próprio autor esperava.

E o que tornava seu alerta ainda mais grave é que a ligação entre a visão de mundo que vinha sendo defendida na Inglaterra e o destino para onde ela havia levado a Alemanha não é nem um pouco clara. Infelizmente não terei espaço neste artigo para trazer os exemplos que Hayek usa para apontar essas semelhanças. Me limito a dizer que a população de cada região, cada uma a seu tempo, acreditava que uma economia deve ser coordenada por uma entidade central e consciente; que quando há uma organização de pessoas que determina o que deve ser produzido, quem deve produzir o quê, para onde deve ser direcionado cada recurso, e todas as outras decisões econômicas, é possível atingir um grau maior de eficiência econômica, e assim melhorar a condição de vida da população.

Hayek então demonstra que o que se sucedeu na Alemanha (e, em menor grau, em outros países europeus) a partir dessa crença não foi acidente, e não foi causado por qualquer característica peculiar do alemão. O totalitarismo, a violência, e até mesmo a crueldade com que os oficiais do governo tratavam a população são consequências inevitáveis do desejo que a população tinha pelo controle estatal da economia.

Segundo o autor, sempre que as decisões econômicas são tomadas por uma organização central para toda a população, nós obrigatoriamente temos um único plano, um único norte de como essas decisões serão tomadas — em linguagem atual: um único plano de governo. Mas é impossível que todas as pessoas queiram as mesmas coisas desse plano único, então todas as pessoas que defendiam um plano diferente do escolhido são prejudicadas a partir da sua adoção.

Mas para que o plano dê certo, é necessária a cooperação de todos, e não somente dos satisfeitos. Do contrário, seria um governo de e para apenas parte da população. E mesmo que fosse, teríamos o mesmo problema — em uma escala menor, mas exatamente da mesma forma e pelos mesmos motivos.

Então para que o plano seja efetivamente executado, é necessário coagir algumas pessoas a agir contra seus próprios interesses e suas vontades, e só é possível fazer isso com o uso da violência — ou pelo menos de uma crível ameaça de violência, que só pode ser crível se for real.

A conclusão inevitável é que não há outra forma de coordenar centralizadamente um número grande e heterogêneo de pessoas em torno de um único plano econômico que não passe por dar aos responsáveis por executar esse plano poderes (e o dever) de usar violência contra os insatisfeitos. Este é o grave alerta que está no livro mais vendido de um autor que décadas depois receberia o prêmio Nobel.

Se há algo que Hayek não havia percebido em 1944 é que seria mais tarde possível fazer um grande número de explorados acreditar que são eles os beneficiários do sistema. Quando ele escreveu o livro, os governantes deixavam muito claro quem estavam perseguindo. Hoje, avanços no marketing político tornou possível ao governante receber apoio inclusive (e talvez principalmente) de suas vítimas, o que ajuda a reduzir a necessidade do uso da violência.

Mas há um estágio de controle da economia em que esse disfarce não é possível ou necessário. O alerta do livro permanece válido e real nos dias de hoje. Basta olharmos para países hoje onde esse controle atingiu patamares extremos (notoriamente Coreia do Norte, Venezuela e Cuba) para vermos como as lições de Hayek seguem válidas: o controle estatal invariavelmente causa violência contra a população.

Se no Brasil e no mundo ocidental em geral não atingimos o totalitarismo nazista, isso é porque ainda não entregamos tanto da nossa economia para os governantes como os alemães o fizeram no início do século passado. E, nesse caso, aponta Hayek, “é provável que continuemos a ser arrastados na mesma direção para o qual um socialismo completo apenas nos teria conduzido um pouco mais rapidamente.”

Felipe é economista e libertário. É também fundador da Academia Liberalismo Econômico. Além da Academia Liberalismo Econômico, seu trabalho já apareceu no Instituto Mises Brasil, na Foundation for Economic Education, no Instituto Liberal, entre outros.

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