O que são reservas fracionárias

Com o crescimento das criptomoedas, um dos temas que entrará frequentemente em discussão é o das reservas fracionárias. Tratemos de entender o que são.

O que são reservas fracionárias?

Vou explicar usando um exemplo hipotético. Alberto tem uma conta inicialmente zerada no Bradesco. Ele recebeu 1.000 reais de salário em espécie, e tratou logo de depositar todo esse dinheiro em sua conta. Esses 1.000 reais é dinheiro criado pelo Banco Central1, que agora está no Bradesco em nome de Alberto. O que o Bradesco faz com esse dinheiro?

Consideraremos inicialmente que o Banco Central não coloca qualquer exigência sobre os depósitos bancários. Assim, dos 1.000 reais recebidos, o Bradesco emprestará 900 reais à Bruna, outra de seus clientes.

Agora que as coisas estão ficando interessantes. Repare como, a partir dos 1.000 reais que Alberto depositou no banco, temos agora um saldo total de 1.900 reais. Se Alberto puxar o seu extrato, verá que há 1.000 reais em sua conta. Se Bruna puxar o seu extrato, verá que tem 900 reais. Se cada um dos dois decidir sacar 600 reais no mesmo dia, o banco não tem como pagar os dois. Essa é a prática de reservas fracionárias.

Por que o banco faz isso?

Basicamente porque ele vê a oportunidade de ganhar dinheiro com o fato de que dificilmente todos os seus clientes sacarão seus saldos inteiros no mesmo dia. Ao longo dos anos, eles monitoram e aprendem o padrão de retiradas de dinheiro de seus clientes. A grande maioria das pessoas deixa um saldo positivo durante todo o mês. Muita gente não aplica o dinheiro nunca, então o dinheiro fica parado na conta até ser gasto.

Através de modelos estatísticos, os bancos conseguem perceber o que é uma margem segura que eles precisam ter disponível para retiradas, e podem investir o restante para receber juros. Foi o que o Bradesco fez quando a Bruna pediu seu empréstimo. O banco decidiu manter 10% do depósito que tinha como margem de segurança e emprestou o resto para ela, cobrando juros.

O banco emprestará os 900 reais de novo?

Vimos um exemplo simples. Mas e os 900 reais de Bruna, ficarão parados na conta?

Não, o mesmo mecanismo acontecerá novamente. Vamos supor que Bruna seja empreendedora, e decide usar esse dinheiro para pagar Carlos, seu fornecedor. Bruna faz uma TED de 900 reais para a conta de Carlos no Itaú. O Itaú recebe esses 900 reais e empresta 810 reais para a Daniela.

Assim, ficamos com os seguintes saldos em conta corrente:

  1. Alberto tem 1.000 reais no Bradesco
  2. Carlos tem 900 reais no Itaú
  3. Daniela tem 810 reais no Itaú

Esse mecanismo continua se perpetuando até que o novo saldo criado seja tão baixo que não seja possível reinvesti-lo. Se todos os bancos adotarem essa mesma margem de segurança de 10%, o saldo total em todas as contas correntes — todo ele gerado a partir dos 1.000 reais depositados por Alberto — será de 10.000 reais.

Infográfico elaborado pelo Economista Visual

Para os curiosos, é possível conferir essa conta em uma planilha.

Qual é o impacto da prática de reservas fracionárias na economia?

Esse mecanismo obviamente não ocorre apenas com os depósitos do Sr. Alberto, mas com todos os depósitos bancários realizados na economia. E devemos ter em mente que a oferta monetária não é composta apenas por moeda física (cédulas de dinheiro e moedas metálicas). Moeda é um meio de pagamento, e já que é possível realizar pagamentos com dinheiro depositado na conta corrente (através de um boleto, ou de uma TED, por exemplo), esses depósitos são tão moeda quanto as cédulas que levamos na carteira.

Portanto, quando aumenta o saldo total de depósitos à vista, há um aumento na oferta monetária na economia. Esse aumento leva a uma subida de preços. Quando Bruna comprou de seu fornecedor Carlos, ela usou dinheiro que não existia na economia anteriormente. Logo, alguém que de outra forma teria sido atendido por Carlos não o foi porque sua unidade foi comprada pela Bruna com o dinheiro novo.

Logo que Carlos perceber que a alocação da venda de seus produtos está sendo decidida por ordem de chegada, e não por quem está disposto a pagar mais, ele naturalmente decidirá reajustar seus preços. Este aumento de preços (que, mais uma vez, acontece por toda a economia) é o efeito mais visível e conhecido da inflação.

Toda entrada de dinheiro no banco cria reservas fracionárias?

Não. A história teria sido bem diferente se Alberto tivesse investido seus 1.000 reais em um CDB, ao invés de deixá-los na conta. Neste caso, o banco ainda teria emprestado para outro cliente o dinheiro que recebeu. Mas os 1.000 reais não estariam mais na conta de Alberto, e ele não poderia usar seu CDB para realizar pagamentos. Logo, não se trata mais de moeda.

A Bruna teria recebido o seu empréstimo (dessa vez, de 1.000 reais). Ela teria 1.000 reais em sua conta, e Alberto teria zero. Continuamos com os mesmos 1.000 reais que entraram no banco, mas agora na conta de Bruna. Não houve, portanto, aumento na oferta monetária.

Como o Banco Central afeta essa prática?

Corolário

Sempre que uma atividade está funcionando bem no setor privado mas, como tudo na vida, tem suas imperfeições, os governantes apontam essas imperfeicões e tentam tomar para si sua administração ou regulamentação, tornando-a imprestável.

Sempre que uma atividade está funcionando bem no setor privado mas, como tudo na vida, tem suas imperfeições, os governantes apontam essas imperfeicões e tentam tomar para si sua administração ou regulamentação, tornando-a imprestável. Aqui não foi diferente.

O cálculo que os bancos faziam em relação à margem de segurança, agora chamada de recolhimento compulsório, passou a ser feito pelos bancos centrais. Para que o estabelecimento da taxa de recolhimento compulsório também sirva de ferramenta de política monetária, essa taxa precisa ser maior do que aquela que os bancos escolheriam voluntariamente — o que reduz o aumento da oferta monetária causado pela prática de reservas fracionárias.

No caso brasileiro, não há uma única taxa para todos os tipos de depósito, e isso torna qualquer cálculo com números reais complicado demais para este artigo. Mas a título de exemplo, se o Banco Central obrigasse os bancos no país a reter 30% (e não apenas 10%) de seus depósitos, por exemplo, a oferta monetária final a partir dos 1.000 reais do depósito do Alberto passaria a ser de apenas 3.333 reais (contra os 10.000 que vimos anteriormente).

Então a exigência dessa margem maior diminui consideravelmente o efeito das reservas fracionárias sobre a inflação.

Existe, contudo, um outro efeito que atua no sentido contrário. Principalmente nos Estados Unidos, o governo já deixou claro várias vezes que não gosta de ver seus grandes bancos quebrando. Isso é um incentivo para os banqueiros tomarem mais risco. Afinal, se os investimentos em geral derem errado, existe uma percepção (infelizmente muito realista) de que o governo usará dinheiro da população para socorrer os bancos.

Qual efeito prevalece? Na minha opinião o primeiro é mais forte, principalmente porque no mundo todo os bancos já emprestam muito próximo do limite legal, então o incentivo para tomar riscos se traduz em outros tipos de investimento arriscados (igualmente condenáveis, mas que não aumentam a oferta monetária).

Os bancos continuam gerando inflação através das reservas fracionárias?

Não. Dado que eles já estão emprestando no limite legal, não há mais oportunidade para emprestar mais e portanto criar mais moeda. Enquanto o Banco Central não alterar o percentual obrigatório de recolhimento, a oferta monetária total acaba sendo igual à base monetária criada pelo Banco Central vezes um fator fixo. O mercado privado não consegue criar reais infinitamente. Somente o Banco Central pode fazer isso.

A prática de reservas fracionárias também ocorre com criptomoedas?

A prática de reservas fracionárias ocorre há séculos e antecede, portanto, o surgimento dos bancos centrais. Também não é particular de uma ou outra mercadoria usada como meio de pagamento pela população. O que dá início à prática de reservas fracionárias é o fato de a população manter um grande volume de moeda em custódia, então a resposta à pergunta passa necessariamente por entender se isso ocorre ou não com as criptomoedas.

Uma das características marcantes das criptomoedas é justamente que não há grande ganho de conveniência em se depositá-las em uma conta corrente administrada por terceiros. Por isso, a maior parte delas estão em posse de seus próprios donos, onde não ocorre a prática de reservas fracionárias.

A exceção, contudo, está nas exchanges. Há grandes saldos que ficam depositados nestas exchanges, e algumas delas começaram recentemente a emprestar e tomar emprestado criptomoedas de seus clientes.

É muito difícil saber se elas só emprestam aquilo que recebem em empréstimo, ou se vão além e emprestam também o que está depositado à vista. No primeiro caso, não se pode falar em reservas fracionárias, pois se trata do mesmo exemplo acima do cliente que investe seu saldo à vista em um CDB.

No segundo caso, temos a prática de reservas fracionárias, porque dois clientes veriam o mesmo dinheiro em suas contas correntes ao mesmo tempo — e, portanto, o aumento da oferta monetária e a inflação que dela decorrem.

É muito provável que ela já esteja ocorrendo em algum nível, e nada impede que aumente com o tempo.

É errado praticar reservas fracionárias?

Esse é um tema muito controverso entre libertários. Como eu vejo, nada em que há amplo conhecimento e consenso entre as partes é errado. Há amplo conhecimento? As pessoas sabem que se todos sacarem seus saldos bancários ao mesmo tempo, não haverá dinheiro para todos?

Não sabemos. Se tivéssemos certeza que todos entendem o que está acontecendo (e se o Banco Central não interferisse nesse mercado), as pessoas aceitariam investir em bancos que praticam reservas fracionárias?

Acredito que haveria bancos que praticariam, e outros que não — cada um tentando atender um nicho de clientes. Alguns bancos talvez até oferecessem as duas modalidades. A vantagem de ter conta em um banco que pratica reserva fracionária é que, se ele ganha dinheiro com nossos depósitos à vista, ele consegue ser mais competitivo em outras taxas.

Um banco que não pratica reserva fracionária está agindo como uma custódia, um cofre — um cofre digital, que seja. Então ele certamente cobraria tarifa só para manter a conta aberta (seria como alugar um cofre no banco), algo que os bancos que emprestam os depósitos talvez consigam deixar de cobrar.

Na minha opinião, para a grande maioria das pessoas o que mais importa é que o dinheiro esteja lá quando elas precisam dele. Ninguém quer saber o que o banco está fazendo com o seu dinheiro quando ele está apenas depositado.

Dinheiro parado é ruim para a economia como um todo. Emprestar esse dinheiro para um empreendedor ajuda o próprio empreendedor, seus empregados e fornecedores, e o banco ganha juros que ele reparte com seus clientes na forma de brindes em serviços. Então creio que a marioria das pessoas escolheria esses bancos.