O bitcoin está caro para comprar?

Sempre que seu preço dá uma arrancada, as pessoas me perguntam se bitcoin está muito caro para comprar como investimento. “Já não passou da hora?” “Não é bolha?” “Tem como subir mais?” Isso já virou até piada:

Estampa de camiseta que comprei na Cripto Planet.

Minha resposta é, e provavelmente continuará sendo por muitos anos, a mesma: Se você não possui um horizonte de resgate do investimento, se você acha muito difícil precisar do dinheiro nos próximos 5-10 anos, então o preço continua barato em relação àquele que será no futuro.

Por que digo isso?

Porque acredito que em 20-30 anos, toda moeda em circulação será bitcoin ou alguma outra criptomoeda inspirada nele1. O resto deste artigo será para explicar por que penso isso.

Tentarei manter o texto curto e direto ao ponto. Mas para responder, preciso tocar em alguns outros assuntos rapidamente. Pretendo escrever mais detalhadamente sobre cada um deles no futuro, inclusive um guia para iniciantes de como obter seus primeiros bitcoins.

Bitcoin como moeda

O bitcoin foi criado para ser uma moeda, e moeda é, acima de qualquer outra coisa, um meio de pagamento. Como meio de pagamento, a moeda é uma mercadoria intermediária entre a produção e o consumo de cada pessoa.

O confeiteiro produz bolos. Mas come carne, veste roupas, paga aluguel e passeia de carro. Se não houvesse moeda, ele precisaria trocar seus bolos com o açougueiro por carne, com o alfaiate por roupas, e assim por diante. Esse é um problema que todos enfrentamos, até mesmo os assalariados que, se não existisse moeda, precisariam negociar receber seu salário composto pelos itens de que necessitam para viver.

Ao longo da história, as pessoas foram percebendo que era mais conveniente trocar a mercadoria que produzia por uma mercadoria intermediária, de alta circulação, e depois essa mercadoria intermediária por outra de consumo. Estou falando de mercadorias comuns, como trigo, tabaco ou sal. Conforme a função social de uma mercadoria passa a ser majoritariamente fazer essa ligação, economistas começam a pensar nela como uma moeda – um meio de pagamento.

É muito importante entender que os governos pelo mundo só assumiram o controle dos meios de pagamento muito recentemente na história humana. Durante quase toda a nossa existência moderna, moeda nada tinha a ver com símbolo nacional ou bancos centrais. O surgimento de mercadorias usadas como moeda sempre fora um fenômeno espontâneo e não coordenado por ninguém.

Qualidades de uma boa moeda

O leitor pode estar se perguntando o que faz com que algumas mercadorias sejam escolhidas para mais tarde serem usadas para adquirir outra mercadoria. Uma análise histórica indica que existem algumas qualidades que as pessoas procuram:

  • retenção de valor: bananas nunca serão usadas como moeda, afinal em poucos dias elas apodrecem e perdem totalmente o seu valor.
  • divisibilidade: navios nunca serão usados como moeda, afinal como você compraria um misto quente pagando com navios?
  • portabilidade: é preciso que você consiga levar a moeda para o local onde deseja trocá-la por uma mercadoria de consumo.
  • baixo custo de transação: como qualquer outra coisa, se for muito caro transacionar com a moeda, ela se torna menos atrativa para realizar transações.

O vídeo abaixo descreve um pouco melhor essas qualidades, exceto pelo custo de transação que eu mesmo acrescentei porque acho importante (também juntei oferta limitada e retenção de valor em um item só).

Então ao longo da história, mercadorias com essas qualidades foram sendo espontânea e naturalmente utilizadas, além de sua função de consumo, como meio de pagamento pelos indivíduos. É fácil entender por quê.

Perceba como a moeda ser administrada pelos governantes não é um critério importante. Quando os governos tomaram para si a função de administrar os meios de pagamento na economia, eles não criaram moedas novas que as pessoas escolheram desalojando as anteriores, mas simplesmente passaram a administrar a mercadoria que já era mundialmente usada como tal: o ouro.

Por uma sequência de eventos que fogem do escopo deste artigo, durante a administração estatal o ouro deixou de ser usado como moeda dando lugar às moedas nacionais e estatais que conhecemos. O importante aqui é compreender que em momento algum da história as pessoas abandonaram uma moeda privada por outra estatal.

Bitcoin contra outras moedas

Agora estamos chegando onde eu precisava. Pelos critérios acima, como se sai o bitcoin em relação ao real, ao dólar, ao euro, ou a qualquer outra moeda estatal?

Retenção de valor

Diferentemente das moedas estatais, o bitcoin tem uma oferta limitada. Não é matematicamente possível criar mais bitcoins do que a quantidade que já está programada para ser criada: 21 milhões.

Já as moedas estatais estão constantemente sendo criadas pelos bancos centrais ao redor do mundo, causando o aumento generalizado de preços na economia que os jornais reportam como inflação. Nos últimos dez anos, a oferta monetária de reais quase dobrou. Antes do plano real, havia meses em que ela aumentava até 40%!!

A quantidade de dólares no mundo também mais do que dobrou nos últimos vinte anos.

Não cabe neste artigo uma explicação completa sobre os efeitos da inflação, mas o importante é que ao trazer mais dinheiro para a economia, os governos estão desvalorizando o dinheiro que está em poder da população. É por isso que as pessoas procuram uma moeda que retenha seu valor no tempo, entre outros motivos porque tem uma oferta limitada.

Baixo custos de transação

No Brasil, muita gente de alta renda tem isenção de tarifas de TED e DOC (que obviamente estão embutidas em outros preços). Mas, para a maioria das pessoas, fazer essas transferências é algo muito raro e que precisa ser evitado devido ao seu custo.

O uso de cartões também é pesadamente cobrado dos comerciantes (que repassam esse custo, como qualquer outro, para os clientes), tanto em taxa quanto em prazo para recebimento. Não vou nem comentar quanto custa trazer dinheiro de fora para o Brasil.

Em outros países, os custos são muitas vezes até maiores.

Transferir bitcoins custa apenas centavos, e é feito em segundos. Para qualquer lugar do mundo. Para a grande maioria das pessoas, elas usariam essas transferências como se fossem a custo zero. Precisou, é só fazer – sem se preocupar com o custo.

Exemplo do custo de transferência de bitcoins. Uma transferência de US$ 10.000 custa apenas US$ 0,15.

Divisibilidade e portabilidade

Aqui o bitcoin não tem uma vantagem tão grande em relação às moedas tradicionais. As moedas estatais são relativamente bem divisíveis, apesar de o bitcoin ser muito mais: até 8 casas decimais.

E em questão de portabilidade, se considerarmos que dinheiro estatal pode ser “carregado” em cartões de débito e crédito, ele também não se sai mal. Só que bitcoins podem ser carregados até mesmo em papel sulfite. Mais uma pequena vitória da criptomoeda.

Aderência ao bitcoin

Meu ponto aqui já deve estar claro. Usando os mesmos critérios que sempre foram usados pelas pessoas para escolher a mercadoria que serviria de intermédio entre sua produção e seu consumo, o bitcoin ganha em todos eles. Alguns por mais, outros por menos. Mas não perde em nenhum.

Mas então por que o bitcoin já não é largamente usado como moeda?

Tudo que é novidade, especialmente quando se trata de algo que envolve risco e complexo conhecimento técnico, leva tempo para ser aceito. Não é por acaso que os primeiros voos de avião levaram apenas seus idealizadores (seja lá em que versão da história você acredita). Quem mais subiria naquele negócio com base apenas em desenhos em lousa?

E hoje são milhões de pessoas transportadas de avião por todo o mundo. Assim como na aviação, os primeiros adeptos das criptomoedas foram seus próprios criadores e pessoas muito próximas a eles. Ao ver que estava funcionando bem, outras pessoas menos próximas, mas que tinham conhecimentos de informática bons o suficiente para entender o que era, resolveram participar.

Através da observação de boas experiências de pessoas próximas, esse círculo continua se expandindo. O bitcoin está deixando de ser novidade, e seu valor total hoje já é mais do que o dobro do real brasileiro. Enquanto o total de reais na economia vale US$ 96 trilhões, os bitcoins todos valem US$ 202 trilhões. Ou seja, os investidores em geral acreditam que o bitcoin seja um ativo muito mais valioso do que o real. Cada vez mais a criptomoeda deixa de ser algo de um nicho específico (programadores) e passa a ser um fenômeno generalizado.

Bitcoin como investimento

Aí chegamos à minha resposta para a pergunta: o bitcoin está caro? Esse ano, o ativo ficou de janeiro a março no patamar de US$ 4 mil, e a partir de abril deu uma corrida até ultrapassar os US$ 10 mil, patamar onde parece ter se estabilizado novamente. Ainda vale a pena comprar?

Para quem vê o ativo como um investimento de longo prazo, quais são as considerações mais importantes para responder essa pergunta?

Dez anos atrás, praticamente 0% das pessoas possuíam bitcoin. Daqui a 20-30 anos, pelos motivos acima, creio que as moedas que temos hoje serão todas trocadas por bitcoin (ou outra(s) criptomoeda(s)). Se dez anos atrás um bitcoin valia zero reais (ninguém queria trocar real por bitcoin), no futuro um real valerá zero bitcoins (ninguém irá querer trocar bitcoin por real). Em que estágio dessa transformação estamos agora? Quantas pessoas o leitor conhece que possui mais ativos financeiros em criptomoedas do que em moedas estatais?

Provavelmente, nenhuma. Quase todas as pessoas do mundo ainda precisarão comprar seus bitcoins, e precisarão comprá-los daqueles que estão comprando hoje — aos preços que eles aceitarem vendê-los.

É impossível ter certeza de quanto tempo levará para chegarmos lá. Eu certamente não recomendo o bitcoin como investimento para alguém que precisa ou pretende vendê-los para algum gasto programado. Mas o processo vem se acelerando, e eu não vejo melhor investimento para quem quer deixar o dinheiro guardado para quando precisar no futuro distante.