Eleições 2018: Um otimismo alternativo

Nosso país está passando por grandes mudanças. Não acho que Karl Marx estava de todo errado. Afinal, até relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia. Como ele, acredito que sistemas econômicos e sociais vêm e vão. Desde os tempos em que os homens se organizavam em bandos nômades; depois passaram a dominar a terra e formaram economias feudais; mais tarde, o comércio tomou maior importância e deslocou a aristocracia rural do poder político; a Revolução Industrial depois trouxe o capitalismo e sua ênfase na produção para as massas; e no século 20, o que cresceu no mundo desenvolvido foi o Estado do bem-estar social.

Marx acreditava que essas transformações culminariam no comunismo, e que a partir daí as forças transformadoras da sociedade teriam se exaurido e a humanidade viveria em um mundo sem classes, sem Estado e sem propriedade privada. Eu também acredito que há um destino final, que uma vez alcançado, não haverá novas forças transformadoras para dali avançarmos para outro tipo de sociedade. Mas, diferentemente de Marx, acredito que esse destino final seja a liberdade.

Então acredito que estamos testemunhando o que talvez seja a última grande transformação social de toda a história humana. E o Brasil cada vez mais me parece estar na dianteira deste processo.

Não acho que a gestão de um político seja tão diferente da gestão de outro. Claro, fico feliz que políticos liberais tenham conseguido resultado tão expressivo nessas eleições. Mas o problema do Brasil não está nas pessoas que estão ocupando as cadeiras políticas, e sim a quantidade de poder que essas cadeiras comandam.

Muito mais importante do que a atuação que farão os eleitos, é a sinalização que essas eleições estão nos passando sobre aquilo que as pessoas querem. Mais uma vez ficou claro que o Leblon, a Frei Caneca, Brasília e o Projac são regiões desconectadas do resto do Brasil. Seus excêntricos habitantes podem fazer muito barulho em favor de concentrar poder nas mãos de políticos supostamente altruístas. E fora da época de eleições, é muito fácil confundir barulho com apoio popular.

Mas quando chegamos no momento da manifestação silenciosa e universal que se chama voto, descobrimos que o povo finalmente está buscando menos política e mais liberdade em suas vidas. Pela primeira vez na história brasileira, um partido que é declaradamente a favor de privatizações e desregulamentações conseguiu, contra imensa desvantagem de recursos que enfrentou, eleger oito deputados federais; eleger doze deputados estaduais/distritais em cinco estados; seu candidato a presidente superou velhos e conhecidos caciques políticos; levou um candidato a governador ao segundo turno (com reais chances de vitória) de um dos estados mais populosos do país.

E isso para não falar de diversos outros políticos liberais espalhados por outros partidos. E da própria votação que obteve Jair Bolsonaro – que certamente não é um liberal, mas que representa um orgulhoso rompimento com a esquerda dominante; e ainda viu-se obrigado a acenar para os liberais já nomeando seu Ministro da Fazenda meses antes das eleições – nem o Lula em 2002 precisou fazer isso para se fazer passar por moderado.

Não tenho qualquer expectativa positiva em relação às atuações desses políticos. Pelo contrário, sei que muitos deles irão decepcionar os liberais. Mas o que me enche de otimismo foi ver a mudança na população em relação ao que ela acredita que é melhor para ela. Os protestos por “passe-livre” deram lugar a clamores contra o cartel dos taxistas. Muita gente que antes dizia “quero que o Estado regule a economia para o meu bem” agora diz “quero que o Estado pare de me atrapalhar”. Quem queria almoço grátis agora explica para seus conhecidos que não existe almoço grátis.

Claro, é incipiente. Mas em 2014 não era nada. E a partir do resultado dessas eleições, percebemos como o movimento liberal não pode mais ser ignorado por aqueles que vivem do status quo político. E o que está causando essa transformação na população?

Poucos países têm institutos e organizações liberais tão atuantes como o Brasil, principalmente a partir dos últimos dez anos. Fundei em 2015 a Academia Liberalismo Econômico. De lá para cá, outros se juntaram a mim e hoje tenho a felicidade de trabalhar com um pequeno grupo de voluntários comprometidos em ensinar economia e assim promover o liberalismo no Brasil.

Há centenas de outras organizações que também promovem o liberalismo, cada uma à sua maneira. Algumas com bom humor, outras com perfil mais acadêmico; algumas com atuação online, outras realizando grandes eventos; todas elas explicando para as pessoas como é através da liberdade individual, e não do poder político, que podemos alcançar um mundo mais justo e mais próspero.

E na minha opinião é esse trabalho descentralizado e vibrante que está fazendo do Brasil uma nova joia do liberalismo no mundo. Não (ainda) nas políticas, mas nos anseios populares. E uma vez que a população entenda o valor da liberdade, não vejo motivo para buscar outra coisa.

Dê-me 210 milhões de pessoas que já leram “A revolta de Atlas”, “A lei”, “Ação humana” e “O caminho da servidão”, e a Cynara Menezes pode escrever a constituição desse país se ela quiser; Ciro Gomes pode ser o presidente, e Guilherme Boulos pode presidir a suprema corte se ele assim desejar. Essa população não será governada. Ninguém aceitará nada no lugar de sua liberdade.

Então se você liberal quiser contribuir com essa transformação, ajude os institutos que hoje defendem o liberalismo. Ajude financeiramente ou como voluntário. Ou então crie o seu próprio projeto: sua página em rede social, um blog, ou um grupo de estudos na sua faculdade. Faça parte do movimento. Nos ajude a fazer com que as eleições de 2022 nos tragam ainda mais otimismo para o futuro!


Este artigo foi escrito no dia 8 de outubro, dia seguinte ao primeiro turno das eleições de 2018.