114 anos de Ayn Rand

Hoje é aniversário de uma das maiores pensadoras que já existiram. Em um mundo dominado pelo coletivismo, seu trabalho infelizmente não recebe o devido reconhecimento. Então aproveito a ocasião para apresentá-lo aos leitores do blog.

Ayn Rand nasceu em São Petesburgo, na Rússia, em 1905, e mudou-se para os Estados Unidos em 1926. Lá teve carreira de roteirista e escritora de romances. Sua mais conhecida obra é A revolta de Atlas de 1957. Acredita-se que este é o trabalho que mais converteu pessoas para o libertarianismo – mais do que qualquer economista da Escola Austríaca, por exemplo.

Desde que li o livro, quanto mais penso a respeito, mais percebo sua influência sobre minhas ideias de sociedade. Ele trata muito pouco sobre economia, mas fala muito sobre ética, moral e poder. A filosofia randiana constuma ser referida como objetivismo, o que vem se tornando um movimento crescente dentro e fora do Brasil.

Farei um rápido apanhado de algumas de suas lições (são muitas!), e em outras oportunidades eu talvez desenvolva melhor algumas delas.

Me chama muito a atenção, por exemplo, sua crítica ao sacrifício pessoal e ao altruísmo. Como o altruísmo se mistura com o egoísmo. Pessoas que dizem defender os interesses dos outros – geralmente o interesse geral, ou o dos mais frágeis – através de políticas que convenientemente lhes beneficia.

Quando leio o livro, me lembro de sindicalistas multiplicando suas fortunas defendendo os trabalhadores sindicalizados que continuam sempre pobres, artistas que se promovem através de sua “consciência social”, taxistas que querem impedir a abertura do seu mercado para o bem da segurança dos passageiros. Rand demonstra como o altruísmo declarado se confunde com o egoísmo praticado, a ponto de às vezes nem mesmo seus atores saberem diferenciá-los. Como diria Eça de Queirós, “sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.”

Rand promove, em seu lugar, o auto-interesse – o que algumas pessoas chamam de egoísmo ético. Não é a desvalorização do outro, mas a valorização de si. É a consciência de que ninguém tem o direito de nos exigir nada do que é nosso. A sociedade hoje trata como egoísta aquele que não quer repartir o que é seu com desconhecidos. Pela lógica randiana, egoísmo é exigir receber o que é de outra pessoa. Não permitir que outra pessoa leve o que é seu é apenas auto-interesse e respeito por si próprio.

Juro pela minha vida e por todo amor que tenho por ela que jamais viverei em benefício de outro homem, bem como jamais pedirei a outro homem que o faça por mim.

As pessoas devem sempre buscar fazer aquilo que é melhor para si, desde que respeitando o direito dos outros. Isso é diferente de viver em função dos outros, do sacrifício por um suposto bem comum que ao que tudo indica só se materializa no bolso daqueles que detêm poder político.

A autora também descreve muito bem como o poder político se corrompe por dentro. Como grupos de interesse se aproximam dos políticos como moscas de esterco. As leis e as regras do jogo são desenhadas, pelos grupos de interesse e através dos políticos, para progressivamente estrangular aqueles que só querem produzir e viver em paz.

Rand rejeita toda forma de coletivismo, seja de direita ou de esquerda, promovido pela Igreja ou pelo Estado:

Durante séculos, a luta da moralidade foi travada entre aqueles que afirmavam que a sua vida pertence a Deus e aqueles que afirmavam que ela pertence ao próximo. Entre aqueles que pregavam que o bem é se sacrificar em nome de fantasmas no céu e aqueles que pregavam que o bem é se sacrificar em nome dos incompetentes na Terra. E ninguém veio para lhes dizer que a sua vida pertence a vocês e que o bem consiste em vivê-la.

Outro aspecto que vale menção, Rand fala sobre a sanção da vítima. Em diversas passagens do livro, os personagens (principalmente Rearden) têm a opção de se libertar ou encontrar motivos para aprovar as ações daqueles que os aprisionam. Rand mostra como o agressor precisa da sanção da vítima para exercer o seu poder sobre ela. Há também o caso notável de um ingênuo professor que ajuda os políticos dominadores, bem como o de um empresário levado à falência sem se dar conta do que está acontecendo.

Mostra também como os dominadores são inofensivos sem essa sanção. Como um mundo sem pessoas de livre arbítrio e determinação é um mundo de interminável penúria. Como o político depende tão completamente do empresário produtivo como um parasita depende de um hospedeiro. As pessoas não se dão conta de como um político é inofensivo sem uma sociedade que aprove o seu poder.

Há muito mais o que falar sobre sua filosofia – isso porque só li a sua principal obra! Há quem diga que “A nascente” é ainda melhor. Espero que muitas pessoas aproveitem o aniversário dessa grande pensadora para começar a conhecer melhor o seu trabalho.